Mudei - http://quadradovermelho.blogspot.com


Mudou

Mudei de endereço.

Agora é http://quadradovermelho.blogspot.com/

Mudei porque as condições e o serviço do Blogspot é muito melhor do que o Uol-blog.

Logo vou deletar esse. (Se eu tiver nos links do teu blog, não esqueça de ajeitar).



Escrito por Victor às 03h38
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Assertividade Poética

Mirava absorto e embaçado os faróis e freios
que sob a ponte se dividiam em duas marés vítreas
de bege brilhante e vivo vermelho;

De soslaio, as imagens das diárias estátuas pedintes
Amareladas e esquecidas sob os olhos dos postes
e sob a luz do ver preguiçoso dos esforçados

Já lhes é cotidiano a repugnante indiferença alheia,
os automóveis transeuntes, o céu-arranhado
e as mãos vazias de quem a muito não tem nem pouco

A paz de quem aceita a desgraça comum;
a mosca andando nos lábios saudosos da aguardente
e o conforto oferecido pelo cimento da realidade

Já lhes é corriqueiro observar os faróis, freios;
rapazes distraídos que discretamente miram a divagar;
pensam poesia e agem de soslaio.



Escrito por Victor às 01h28
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Panléxito

Lonjávago das latarses lexirrétas
Aprochento-me folhenovo ao verbágizo
sorrilégre pelo ludítravo palavroso
municanônido de surtalezas lexicabulosas

chorancólico por latríjetas mentaletas
pensive segrelido e desmanonizado
a cabendóra recheia de aracnopastéis
taxalado de bobolhaçada patocrônica

entuprado de falaléxias poemaralhadas
imperado de desverbágizo pelo desmane
mirolhei-me desocrímido, arripalhido
inesperanto com idelácias mortílavas

subagicamente acospetei do durmonho
alegridente pela retoma manônica
palavrido de insadícias verbáquicas
e ousicais lexígenos delarmônicos

gosdoce é escrivagar livricamente
a ressobre do metalexo e da vidôrra
imajogando faléias a sentirilar-lhes
sólamo pelo atôndito da escrifazura

Escrito por Victor às 12h49
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Gole, Samba, Papinho

Ao meio-dia cheguei à festa. Ia ter roda de samba, portanto fui. Cheguei cedo, e por isso ajudei aquelas pessoas a organizar o local. Eu não gostava de nenhuma delas. Aliás, eu profundamente desgostava delas.

Sentei-me e minha cerveja gelada me fez companhia agradável em meio àquele ambiente hostil. Uma garota morena, de vestido branco e provocativo sentou-se à mesma mesa que eu, me saudando com um cumprimento amistoso. Retornei o gesto, mas incontinenti pus-me a olhar ao nada novamente, ao ar posto entre meu olhar duramente sóbrio e o céu sem nuvens.

Ela fazia parte daquele ambiente, como uma peça. Hostilizei-a, mesmo sem conhecê-la, automática, injusta e prazerosamente. Apesar de tudo, bastava que ninguém me incomodasse, e seria o bastante pra que eu pudesse me sentir à vontade, verdadeiramente confortável. Bastava que me deixassem tão e somente na companhia de mim mesmo.

A musica começou a tocar, e de soslaio vi que aquela morena implorava por um papo. Bebi um gole grande de cerveja, recostei a cabeça à parede e deixei-a na vontade. Antes fosse por simples joguete. Não. Fiz por pura, má e doce vilania egoísta. Não queria que ela me curtisse. Quem estava me curtindo naquele momento era única e exclusivamente eu.

Após alguns bons sambas ouvi um estalar de língua, como que de impaciência. Retornei de minhas abstrações e ao olhar para a garota, ouvi em forma de protesto "ah menino, fala alguma coisa, vai". Merda. Dei uma risadinha e pedi desculpas por deixá-la impaciente, ou entediada. Logo, me vi conversando sobre essas frivolidades cotidianas que unicamente existem e acontecem para serem conversadas em papinhos superficiais, constantemente desinteressantes pra um dos dois que a conversam. Gole, gole, gole. Samba, samba, samba. Papinho, papinho, papinho.

Impressionava-me sobremaneira como ela havia me tornado fonte única de satisfação naquela festa. Minha simples presença não-presente emanava uma aura de mau humor. Daí a gente se desdobra pra não estragar a festa das pessoas ao redor e atua. A garota voltou a ficar sossegada, até animou-se e levantou-se pra sambar na roda.

Alguns sambas depois, uns conhecidos chegaram e por sorte não me encontraram tão sóbrio. Abri mão de minha própria companhia e fui ter com eles pra desempenhar, mesmo que forçosamente, meu papel no teatro social.

No fim, não com repugnância, me fiz transformar-me numa peça daquele pandemônio. Até fui ao palco e cantei uns sambas e uns rocks, como se não pudesse deixar de fazê-lo. Após isso, me despedi de alguns e caí fora do circo.



Escrito por Victor às 15h32
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O Duvidador em 3x4

 

Da série Poesia Imagética. aquarela sobre canson.



Escrito por Victor às 00h56
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Finitude

Leonardo não conseguia pregar os olhos. Mirava o teto como se mira o ar antes dele. Olhava para o nada. O relógio da sala atormentava o silencio e o sono de Leonardo com sua insistente profecia. Era um emissário do tempo, um sacerdote cronológico. Era impossível dormir. Ouvia em meio a escuridão aqueles dizeres que rasgavam sua alma a cada tique, e em todo taque. Era como uma pulsação torturante. Uma promessa expressa onomatopeicamente em tiques e taques, mas que se traduzida, gelava o coração dizendo: fi-ni-tu-de-fi-ni-tu-de-fi-ni-tu-de.

Porque um simples barulhinho o atormentava tanto, Leonardo não sabia dizer. Não conseguia nem mesmo pensar, tão incomodado que estava. Tique, taque, tique, taque. Barulhinho infernal. O garoto se levantou da cama, foi até a sala escura, iluminada fracamente pelas persianas da janela. Súbito, pegou o relógio nas mãos e o encarou. Tique, taque, tique, taque, tique, taque. Virando o aparelho, retirou a pilha e fez reinar um mar de silêncio naquela sala. Sentiu-se aliviado e sozinho. Devolveu o aparelho à estante e voltou para sua cama.

Depois dos sons que se faz quando se arruma cobertores e travesseiro, Leonardo percebeu que não havia silêncio verdadeiramente. Um barulhinho muito fraco pronunciava-se de dentro do banheiro. Assim como o relógio, o barulhinho cronometrava a noite com suaves plic, plic, plic. O garoto sinceramente não ligava pros sons dos automóveis ou sussurros da gente acordada que se faz ouvir pela madrugada nas ruas. Mas aquele som constante era insuportável. De fato, começou a duvidar da existência do silêncio. Não poderia haver sequer um segundo na existência em que reinasse a total falta de sons. Até mesmo quando afundava a cabeça no travesseiro ouvia sons da fronha se enrugando ao mínimo movimento, por estar próxima aos seus ouvidos. Quando tampava os ouvidos com os dedos, ouvia como que possesso a batida de seu coração como outro emissário cronológico. O tempo se fazia presente em todos os sons, enchia toda a sua vida.

Levantou-se e foi ao banheiro. Rolando a porta de vidro do box, viu a gota que caía do chuveiro à laje. Plic, plic, plic, plic, plic, plic. Olhou à sua volta, e num átimo resolveu acabar com o problema direto pela raiz. Acendeu a luz e seus olhos arderam. Subiu no vaso e com satisfação fechou o registro, apertando-o com toda força e vontade de quem não suporta mais uma insônia.

Deitou-se novamente, e com olhos apertados ficou a perscrutar algum som constante, como que cronométrico naquela noite de tormenta. É claro que o silencio não haveria de se fazer acontecer, mas finalmente as existências que pronunciam o tempo em seus dialetos monocromáticos e insuportáveis resolveram finalmente deixar Leonardo dormir.



Escrito por Victor às 18h02
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Marta e o Cão

Marta trabalhava nas terras verdes do rei Augusto, numa pequena vila chamada Abacate. A vila era pequena e sossegada, e Marta era uma moça simples, que trabalhava muito duro para seu senhor, Lorde Espíndola. Este homem era um influente comerciante nas redondezas, e talvez o mais próspero entre os chefes-marceneiros do rei Augusto.

O trabalho de Marta era envernizar e pintar as peças já trabalhadas pelos artesãos e marceneiros. Era um trabalho de muita responsabilidade, já que era a ultima etapa do processo de produção das peças. O negócio de Lorde Espíndola consistia em produzir carros reais e militares de toda espécie; desde carroças, carros-de-boi e de arado até charretes, cabriolés, carros-de-luxo e caleças.

Nos fins de semana, Marta reunia muitas crianças da vila no galpão onde trabalhava durante a semana. Lá ela pegava todas as sobras de tinta e ensinava as crianças a fazer pinturas em madeira e em couro. Ela gostava muito das crianças e cada uma delas a amava. Marta considerava-se feliz.

Era uma quarta-feira de sol causticante e Marta pintava um magnífico carro luxuoso que provavelmente se destinaria à chegada de algum convidado do rei. Já havia pintado a primeira camada de tinta em todo o carro, e se sentou num pequeno balde de madeira virado ao ar livre, fora do galpão da oficina, para se refrescar e tomar um pouco de ar. O suor escorria por seu corpo inteiro, das sobrancelhas delicadas e loiras até as canelas. Em seu avental de couro exibiam-se borrões de pinceladas azuis e escarlates. Ouvia-se somente o canto das cigarras, e vez em quando um galopar distante na estrada. Ali só havia ela e a brisa fresca que acariciava seu cabelo, o campo e as árvores.

Algo tocou seus dedos. Num susto, Marta puxou a mão até o peito e quase caiu do banco quando sentiu aquele toque úmido. Surgira do nada um grande cão negro ao seu lado, que arfava de cabeça baixa e tristes olhos amarelos. O animal olhava para os lados, despreocupado e tranqüilo, e ao perceber o receio da moça, tornou a cheirar amigavelmente seu corpo. Marta foi relaxando ao perceber que não era um animal agressivo, e que provavelmente era um cão doméstico, da vizinhança. Levou a mão à cabeça do cachorro e acariciou-o.

O cachorro voltou a arfar e só então marta percebeu que sua língua era de um verde esmeralda vivo. Ao lamber o pulso da moça, o cachorro deixara um rastro da mesma coloração de sua língua, como se um pincel embebido de tinha verde tivesse passado pelo dorso da mão de Marta. Ela arregalou os olhos e a princípio achou que o pobre cachorro tinha engolido uma boa porção de tinta.

"Pobre animal, confundiu uma lata de tinta com um pote de água, não é? Vamos, eu te dou um pouco de água pra que sua língua volte a ficar limpinha e vermelha". Súbito, ao pronunciar a ultima palavra, a língua do enorme cão se fez vermelho vivo. Marta se assustou e examinou a boca do animal. Sua mão se sujou toda da baba do bicho, que era de coloração rubra e viva, e até cheirava tinta. Quase como um reflexo automático, Marta pronunciou "azul", e a língua do animal se fez da cor do céu.

Marta estava atônita com sua descoberta. Em sua frente havia um cão pintor; ou ao menos um cão que produzia tinta ao invés de saliva. Rapidamente chamou-o para a oficina. O animal se pôs à frente do carro como se examinasse o mesmo. Após alguns momentos, começou a rodear o veículo, e a farejá-lo, numa análise mais íntima. Marta apenas observava estupefata. O cão estendeu a língua pra fora e ganiu, olhando para a moça, a qual disse "escarlate, tom médio". Incontinenti, a língua do cão se fez tom médio de escarlate, o mesmo tom que ela estava usando nas rodas daquele carro. O cão começou a lamber cuidadosamente os detalhes nos aros. A moça não reprimia suas impressões: experimentava uma espécie de felicidade assustadora, como quando se descobre algo incrivelmente inimaginável.

Marta passou a chamá-lo Izaque, como uma lembrança de seu falecido avô, que fora um grande pintor. Todos os dias, Marta trazia consigo o cão pintor para trabalhar com ela, o que o animal fazia com prazer. Marta passava longas horas depois do trabalho passeando e brincando com seu novo companheiro. Assim, meses se transcorreram naquele ano. Marta e Izaque pintaram muitos carros, e Lorde Espíndola, ao perceber a evolução na eficiência e na rapidez da produção, mostrou seu reconhecimento diminuindo as horas de trabalho da moça. Agora Marta podia dedicar um tempo livre fazendo o que mais gostava. E passava longas horas de seus dias a pintar quadros.

Certo dia chuvoso, o rei Augusto resolveu ir até a vila de Abacate acompanhado de alguns militares, inspetores e alguns cobradores de impostos. Foi primeiramente até a casa de Lorde Espíndola cobrar tributos, e depois, acompanhado do mesmo, foi verificar o funcionamento de sua produção. Após visitar vários galpões e oficinas, chegou finalmente ao ultimo; um que era um pouco menor e mais simples, no qual uma bela moça chamada Marta trabalhava.

A chuva fez com que Marta e Izaque não notassem a chegada de sua senhoria e de vossa alteza. Lorde, rei e séquito pararam e olharam pasmos para o cão pintor. Permaneceram mudos e imóveis durante longos minutos, observando aquela cena surreal, mágica, provinda de feitiçaria. Não criam no que viam, e o rei várias vezes esfregou os olhos, desacreditando o que via. Após um tempo considerável, Izaque percebeu a presença deles e latiu. Num surto, as autoridades se recompuseram e Lorde Espíndola se aproximou, ainda estupefato, e questionou a moça.

Marta viu que não havia saída. Sabia do seu destino agora. Mesmo assim, explicou tudo, nos mínimos detalhes, ao Lorde e ao rei, numa tentativa de apelar-lhes à razão. Mas sabia também que a lei e o estado são impassíveis. O rei Augusto apenas observava enquanto o patrão da garota a questionava e repreendia. A moça omitira por muito tempo este artefato místico, um ser inexplicavelmente demoníaco, essa besta que poderia ter sido conjurada apenas por uma bruxa. Augusto rezou e fez o sinal da cruz, indicando o fim de sua resolução e a prece pela luz divina sobre a lei. A bruxa seria executada pelo pecado imensurável que cometera.

Marta morreu enforcada em praça pública na vila de Abacate, uma terra imatura, num dia ainda mais chuvoso que aquele. Não houve um cidadão que não chorasse pelo fim pobre moça. O cão-pintor fora examinado dias depois, e constou-se que tinha língua saudável e normal, e que salivava saliva, e não tinta. Marta vive apenas como uma frágil lembrança naquela vila, e por quanto tempo será lembrada como moça pura e inocente, não se sabe. Talvez, em tempos que ainda estão por vir, Marta possa ser lembrada como uma terrível e bruxa. Mas isso faz parte das coisas que não se sabe, e das que não se há de saber. A final, as fábulas vivem à mercê dos bardos e do tempo.



Escrito por Victor às 02h52
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Das desventuras intra-uterinas

Santa harpia, não agüento mais, tá insuportável. Vou explicar desde o início.

Bom, aqui é bem quentinho e aconchegante. É escuro e um pouquinho apertado também, mas é gostoso e eu tenho tudo que eu preciso. Tenho comida e não tenho muita ocupação. Aliás, só preciso crescer, mas isso faço sem me esforçar.

Ontem tive uma descoberta assombrosa, que me tem atormentado desde então. Descobri que isso aqui é um ovo. Há um tempo atrás eu não tinha noção de onde estava, mas já faz alguns dias que, de algum modo, descobri que era uma espécie de cápsula. Se era ovo, ovário ou qualquer outra coisa, realmente não sabia. Mas descobri ontem: é um ovo.

Como eu descobri? Conto. Estava eu a crescer, quando justo na manhã de ontem eu ouvi um barulho de rachadura e um alvoroço sem precedentes ao redor. Pô, daí ficou na cara que era um irmãozinho meu nascendo. Aí é que tá: o diabo do passarinho saiu do ovo dele ontem e desde então não para de piar e se sacudir. Não tenho mais paz nem silencio. Meu soninho matinal já era, e meu índice de stress só aumenta. Daí já viu: perdi consideravelmente meu apetite e meu crescimento diminuiu de ritmo. Porra, até humor foi pro sac--crec-

?

-crrrrrrec---crec-creeeeec--

O passarinho nasceu, virou pro lado e matou seu irmão com setenta e quatro bicadas na região do crânio. Quando foi julgado, alegou ter nascido com o pé esquerdo e foi absolvido imediatamente.



Escrito por Victor às 22h35
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O Cão

A estrada era poeirenta, de chão batido, e as casas eram bastante simples; não que fossem miseráveis, mas definitivamente não eram ostensivas. A que se desenhava diante dos meus olhos era branca e bela de certo modo. Havia um muro de lanças, e do outro lado dessa grade um enorme cão negro. O animal era calmo e tinha um olhar vivo e inteligente, assombrosamente humano.

À porta da casa surge um tipo exótico trajando curiosa indumentária indiana. À aparição do homem de pele morena, o animal se fez qual estátua, sentando-se a alguns metros das lanças. O homem veio até o portão e destrancando-o com uma longa chave, me convidou a entrar. Lentamente entrei naquele quintal, com os olhos pregados na fera imóvel.

Com um trejeito, meu anfitrião retornou à porta da casa e ali permaneceu impassível. Receoso, comecei a caminhar em sua direção quando de repente o imenso cão se pôs a andar em minha direção. Não pude evitar minha fraqueza quando comecei a caminhar de costas até que minhas mãos aflitas, procurando qualquer apoio, finalmente encontraram a parede. Encurralei-me. Meus olhos não se desviavam sequer um segundo das terríveis feições daquela besta. Pouco a pouco aquele demônio me dominava e se aproximava em seu vulto infernal. Devagar começou a mostrar as presas num rosnado áspero e cáustico. Cada dente rangente me gelava o sangue por sua enormidade. A mandíbula apertava-se contra a arcada craniana numa fúria sobrenatural e o som gutural que saia de sua garganta soava a mim como um terrível canto de morte. Gotas frias de suor escorriam por minhas têmporas. O diabo negro já estava a poucos centímetros do meu corpo, de minha sentença final, espumando demoniacamente. Era um poder abissal, oniricamente infernal e diabólico, no entanto iminentemente real.

Súbito, parou de rosnar, e atravessando o véu de meus olhos, disse-me grave à alma, movendo os lábios de forma humana sem emitir som algum, como num sussurro: Eu sou a solução, você é o problema.



Escrito por Victor às 07h09
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Seu Paulo

Seu Paulo mirava o talo no auto do caule,
e incauto embriagava-se quieto;
fantasmas circulavam naquele quadro
enquanto seu paulo bebia invisivel

Saudoso era da perna que lhe invalidava
e sua barba era suja, seca e desgrenhava;
Sua casa, sopé daquela frondosa copa verde-cinza,
sobre a vinte e três de maio se espreguiçava

Assinava a Folha da manhã de ontem,
e abraçava a pinga como a amante de nunca;
vestia o que há muito fora calça
pra se aquecer daquele teto úmido e esfumaçado

Conversava com todos os demônios
que perambulavam aos arredores de sua casa;
uns quistos, outros bem demoníacos
quais compunham tão humana vizinhança

Compunham seu Paulo
Que jamais existiu.



Escrito por Victor às 12h05
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Terra e Inferno

Gosto do cheiro do abismo.
Pros que pisam aqui, aqui é a superfície.
Depois, o inferno dos demônios é lá em cima.

Escrito por Victor às 00h30
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Viajantes Voadores

Eram sete os viajantes que planavam sob o firmamento. Voavam não por máquinas humanas, mas por simples vontade.

Eis que entre eles, ela surge. Metamorficamente humana e masculina, encarnação da beleza. Vestia leve e alvo manto, e seus áureos cabelos refulgiam sob o sol daquele céu azul e limpo. Seu corpo era vigoroso, e uma graciosidade doce pairava em seus movimentos.

Nenhum dos sete viajantes percebeu aquela surda aparição. Suavemente planou até o viajante que seguia por último o grupo. Súbito, o viajante quis gritar ao perceber aquela terrível presença, mas já era tarde, e de sua boca nenhuma sílaba se fez sonora. Tudo o que viu foi a palma da mão daquela criatura aproximando-se de sua face. A seguir, nada se seguiu. A ele, o tudo se tornou nada, e aos viajantes um membro caía desapercebidamente.

Ela avançou então ao sexto viajante, e com ele agiu da mesma forma. Sua mão nem mesmo chegou a tocar-lhe o rosto. Aproximar-se foi suficiente para lhe tomar a existência.

Após a terceira vida que se esvaiu deram-me um limite àquela matança. Todo aquele céu de luzes e nuvens se fez treva absoluta. Levemente a penumbra começou-me a descrever as linhas ásperas da realidade. O quarto escuro serviu-me de cenário para aquele réquiem que mentalmente eu entoava pelos três viajantes que não mais voariam.



Escrito por Victor às 15h54
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Café

Andava por andar por aquela rua inundada de paralelepípedos azulados. Por ter os olhos fechados a pouco, num longo sono tranqüilo, minha retina valorizava o tom celeste nas coisas. A aurora ainda reforçava esse ar sonolento e azul, quase estático, não fossem os barulhos que enchiam aquela música matinal. O som dos passos das pessoas me vinha num primeiro plano, mesmo que mais baixo que as agudas buzinas estressadas daquele caos cotidiano, tão contrastante com uma manhã, em si. Andava sentindo o ritmo do ato; uma freqüência preguiçosa. Bocejava já pela sexta vez no trajeto. O odor da poluição já se recusava a manifestar-se; sentia apenas os odores mais recentes, como o perfume que a pouco havia usado, e já imaginava o divino vapor do pingado que me esperava. O sagrado pingado que me erguia a cabeça.
 
Naquela descida, pequenos moleques de rua já pinotavam por obras inacabadas. Talvez felizes por acordar. Não que eu os desprezasse, mas realmente confesso minha costumeira indiferença à miséria alheia. Trato-os como paisagem desse quadro paulistano. Mesclam-se aos paralelepípedos, aos postes, placas, bares e padarias, às arvores dos canteiros.
 
- Me vê um pingado. - depositando a moeda de anel dourado no balcão.
 
Ah sim. O vapor, o gosto. O gole. Em meus dedos, após depositar a xícara à mesa, a pulsação nas extremidades. A levíssima euforia do meu organismo bobo com a cafeína. Um pouco de azul dissipou-se de meus olhos ao rever os paralelepípedos da paisagem. Doce cotidiano. Doce sentir.

Escrito por Victor às 15h18
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Poesia Imagética

Vida. aquarela sobre canson.



Escrito por Victor às 13h34
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Distância

Seco,
erro por meus velhos verbos.
Densos quais nuvens de tempestade.

Pele partida,
tenho vagueado por desertos dissertos por pobres versos.
Tenho-a mirado no infinito horizontal.
Tenho-a longe e ideal.
Ausente.

Não a tenho.
Cedo.
Seco.



Escrito por Victor às 21h30
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